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Quinta, 22 de Junho de 2017

Zezo Oliveira - diretor da Escola Nacional de Circo (2005 - 2013)

Qui, 05 de Novembro de 2009 16:13

Erminia Silva, do Circonteúdo, inaugura a Vídeoentrevista com Zézo Oliveira, diretor da Escola Nacional da Escola de Circo (RJ).




Erminia Silva entrevista o diretor da Escola Nacional de Circo
Entrevista - Erminia Silva
Filmagem - Emerson Elias Merhy
Edição - Marcelo Meniquelli
Agradecimentos a Zezo de Oliveira, Escola Nacional de Circo e Funarte



go_downAbaixo, entrevista de Zezo Oliveira concedida ao o site Crescer e Viver,  pulbicada em 27/03/2009.

Quantos anos a frente da ENC? E qual são as diferenças mais marcantes da sua gestão frente ao contexto que você encontrou a instituição?

Primeiro gostaria de agradecer o convite do Crescer e Viver e reforçar a importância dessa instituição e da construção de espaços como este para ampliação do debate na área cultura.

Estou à frente da Escola Nacional de Circo/Funarte - ENC há três anos e alguns meses. Penso que minha maior contribuição está no campo pedagógico, algum investimento nos mecanismos de gestão com destaque no planejamento e, ainda timidamente, na parte artística.A visão pedagógica que levei para a escola considera o aluno como ser integral, cidadão sujeito de historia. Encontrei na ENC um quadro docente de grande qualidade técnica, mas com uma perspectiva pedagógica ainda muito tecnicista.Nesse sentido, o meu maior desafio foi o de construir este novo projeto pedagógico, que além de implicar na reestruturação curricular com inclusão de novos temas, conteúdos e debates; implicou também na reestruturação da grade horária e na contratação e articulação de profissionais e/ou instituições especialistas cuja a trajetória não se marcava pela visão tecnicista da educação profissional.

Evidentemente, estas mudanças estruturais nos fizeram rever internamente o nosso fazer, como por exemplo, a redefinição dos espaços debate e de experimentação da criação com mais centralidade no aluno. Na mudança do processo avaliativo, que passa ter um caráter mais continuo permitindo o acompanhamento do desenvolvimento da aprendizagem, onde foi necessária a implementação de relatórios individuais de aprendizagem. Portanto, a avaliação deixa de ser uma simples conferência de notas atribuídas a partir da visão subjetiva dos profissionais, para ser um instrumento com aspectos pré-definidos de acompanhamento do aluno construídos coletivamente com os professores.

Ainda como parte do novo projeto pedagógico, merece destaque a implementação (ainda em processo) dos estágios supervisionados que não faziam parte do projeto anterior. Passa a ter um papel fundamental no processo pedagógico a participação dos alunos em processos de produções artísticas e como espectadores de eventos/espetáculos artísticos como uma das formas de ampliação dos conceitos e da criação, para isto está havendo um grande investimento da ENC no estimulo e na intermediação e articulação de oportunidades.

Do ponto de vista estrutural, a Escola foi concebida como em espaço de casa de espetáculo, o que trazia algumas dificuldades para a implementação do projeto pedagógico, portanto, foi necessária a readequação deste espaço ao uso mais didático e aquisição de novos equipamentos, ainda que não tenhamos suprido todas as necessidades.

Você tem uma trajetória com circo marcada pela sua participação na fundação da Escola Pernambucana de Circo - uma instituição de circo social. Até que ponto a sua experiência em circo social influencia suas decisões e podem ser percebidas e incorporadas pela proposta pedagógica de uma instituição de formação circense cujo foco é diferente do que propõe o circo social?

Apesar dos projetos sociais e espaços de profissionalização da área do circo terem focos diferentes no processo de formação, vale lembrar, que estamos sempre falando da formação humana, do cidadão. Trata-se de pessoas em processos de formação. Essa percepção me influencia e se relaciona a minha trajetória como educador e minha identidade com Paulo Freire. Já a minha experiência com o circo, mais especificamente, se inicia em 1991 no CECOSNE. Evidentemente, quando cheguei na EPC, em 1996, inicia-se meu percurso como gestor em espaço formação com as artes circenses. Portanto, o projeto pedagógico já explicitado na resposta anterior está marcado por este somatório de influências da minha trajetória, mas não se limita a isto uma vez que vem se construindo a partir da participação e envolvimento dos profissionais da ENC.

Parafraseando o documentário recém lançado sobre a ENC, são "25 anos de pedagogia no picadeiro". Na sua visão neste quarto de século o que faltou ser feito na instituição, deve e tem que ser feito na sua avaliação?


Não gosto de partir da premissa de que na história da escola houve uma falta, pois valorizo os processos. Neste sentido, tudo que estamos construindo hoje só se torna possível pelos investimentos feitos no passado, seus erros e acertos. Entretanto, acredito que um passo essencial para uma ENC mais segura é ampliar a sua autonomia e torná-la unidade orçamentária, com uma política estruturada de valorização dos seus educadores. Que seja toda subsidiada pelo governo federal, como política pública de governo. Assim ela pode ter subsídios mais concretos para um planejamento mais eficaz e que vá além do atendimento a demanda. A ENC ainda como um departamento da FUNARTE fica limitada de ser pensada dentro de um projeto mais amplo de política de formação em circo no Brasil. Outro fator importante será a finalização do reconhecimento do curso da ENC pelo Ministério da Educação e a ampliação da participação da comunidade circense nas suas ações.

Há muito se discute, se luta, se fala e se reivindica uma política pública para o circo, que dê conta de fomentar e apoiar o desenvolvimento das artes circenses nos seus múltiplos elos da sua cadeia produtiva. Como você vê o papel da ENC na construção e implantação desta política?

A ENC é uma política que já fomenta e apóia o desenvolvimento das artes circenses, mas é e deve continuar sendo e se fortalecendo como espaço de formação. É bom lembrar que em toda a América Latina além do Brasil apenas Cuba tem uma escola de circo pública, ainda que existam outras privadas apoiadas pelos seus respectivos governos.

A ENC pode sim avançar como espaço de formação ampliado para outros aspectos da cadeia produtiva do circo. Neste sentido, a prioridade que estamos dando é de ampliação de sua atuação no território nacional e de seu espaço de pesquisa e experimentação, em articulação mais estreita com a comunidade circense e espaços de produção. Portanto, a partir de uma visão gramisciana, a escola não pode ocupar o lugar do trabalho, mas pode se prevalecer dele como influência para o cumprimento de seu papel, a formação. Ampliar o diálogo com a produção no mundo do circo (que tem apresentado constante mutação, muitas vezes, impulsionada pela evolução tecnológica instrumental e gerencial), será um passo fundamental, mas terá que ter sempre um caráter pedagógico. Todo cuidado é pouco, para que a ENC não se perca nas pressões externas e acabe por assumir outros papeis na cadeia produtiva, que estejam desvinculados de sua ação formativa.

Acredito ainda que a ENC como um espaço de formação vem dando também uma contribuição significativa para este processo de luta e reivindicação de políticas públicas quando passa a se preocupar com a formação cidadã de seus alunos, futuros artistas, que terão como desafio dar continuidade as lutas de sua categoria.

Você concorda que pensar formação em qualquer campo é pensar em planejamento e, em projeto estruturado, sobretudo, uma instituição de educação e profissionalização para as artes, num momento em que as atividades criativas que integram o chamado mercado de cultura são consideradas hoje um vetor de desenvolvimento no mundo e com resultados de grande impacto na atividade econômica. A ENC incorpora esta dimensão nos processo de formação dos seus alunos? Podemos dizer que ele ao se formar está dotado de informação e conhecimentos para enfrentar a barra que é acumular experiência e encontrar meios sustentáveis de engajamento econômico?

O papel da escola na vida e na formação das pessoas é crucial e nessa perspectiva é necessário valorizar a cultura, a construção da cidadania, do conhecimento (técnico inclusive), o desenvolvimento de atitudes e valores que permitam ao estudante ouvir, pensar, analisar, questionar, opinar, entender, decidir, resolver, ser ético, participativo e solidário, isto lhe possibilitará fazer suas próprias escolhas e construir seu próprio caminho. Sem considerar estas questões, a educação na escola continuará formando pessoas para uma sociedade e um mercado podem não existir mais. Portanto, há um grande risco da educação ter como seu principal alicerce o mercado, uma vez que o mesmo é mutável.

O mercado tende a construir modelos de aceitação, produzindo modelos repetitivos e restringindo a capacidade criativa. Arte e mercado sempre duelaram, um duelo importante para se compreender a produção da arte.
A atual crise mundial não pode nos deixar a críticos aos modelos economicistas, que se mostram insustentáveis. Portanto, não há quem possa garantir meios sustentáveis de engajamento econômico, isto deve ser a busca de cada um, não pode se transformar em uma promessa.

Agora, sem desconsiderar a reflexão da pergunta, a ENC tem sim pensado no mundo atual e futuro e nas possibilidades de inserção de seus alunos no mundo profissional, estimulando uma mudança na visão de que circo é apenas treinar e repetir. Estas preocupações nos têm levado a ampliação de conteúdos, como: corpo e sociedade; participação política; engajamento coletivo; nutrição e saúde; empreendedorismo e marketing; novas formas de organização para o mundo do trabalho; além de outros conhecimentos técnicos relacionados ao mundo do espetáculo. Como já falei em perguntas anteriores, nos preocupamos também com o aumento nos espaços de experimento, com a inclusão dos estágios supervisionados e com maior aproximação dos alunos com o mundo real da arte circense, que retratam o mercado desta arte.

A construção do conhecimento é dinâmica e se renova nas sociedades, acompanhando suas evoluções no espaço e no tempo.

Hoje, a educação está em crise e vem passando por um processo de repensar sua ação, sua forma de agir. As mudanças na sociedade têm sido muito velozes e o futuro tem ficado cada vez mais distante de ser percebido. Um educador envolvido com gestão, não pode perder isso de vista para não transformar um projeto político pedagógico em iniciativas pontuais e voluntaristas que não mantenham o foco na formação integral do individuo.
 
Painel de entrevistas

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José Rubens
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Payaso Chacovachi
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Erminia em entrevista no Jô

(+) entrevista na íntegra

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